Nas Delícias da Desgraça: A Prosa de Lourenço Mutarelli

“De todas as coisas que eu tive, as que mais me valeram e as que mais sinto falta, são as coisas que não se pode tocar, são as coisas que não estão ao alcance das nossas mãos, são as coisas que não fazem parte do mundo da matéria.”

– O Cheiro do Ralo, Lourenço Mutarelli 

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“Entro na estação.
Estação rodoviária.
Estou ansioso.
Corro ao guichê.
Não ao que vende bilhetes,
ao que vende cigarros.
Um maço de Cowboys Light, por favor.
Analiso a frente do maço.
Com receio, viro.
Estampado,
o Natimorto.
Voo até a plataforma de desembarque.
Aguardo ansioso.
Tiro um pequeno bloco de notas.
Mentalizo:
o Natimorto.
Aguardo.
Estudo os novos arcanos.
Creio em meus pensamentos.
Ontem, foi:
“A Rainha despreza o Rei pelo que sai de sua boca”.
E hoje me encontro aqui, esperando a cantora.
Mesmo advertido de que
“Em gestantes, o cigarro provoca partos prematuros e nascimento
de crianças com peso abaixo do normal e facilidade de
contrair asma”,
acendo um cigarro.
O celular anuncia o chamado, numa velha sonata.”

– O Natimorto, Lourenço Mutarelli

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O metrô está vazio. Já passa das onze. Júnior carrega a expressão da desilusão e uma pequena mala. Respira com dificuldade pela boca. Seu rosto parece uma máscara. A máscara do desengano. Ou do engano? O maquinista ou uma gravação anuncia a próxima estação. Júnior nunca conseguiu descobrir quem anuncia as estações. Levanta com dificuldade e salta. Caminha de maneira letárgica, mecânica, como se algo o empurrasse, com esforço. Carrega uma pequena mala e quarenta e três anos mal-dormidos. As escadas rolantes já foram desligadas. Júnior escolhe a escada. A cada passo parece brotar um novo degrau. Júnior sobe metade da escadaria e desiste. Senta num degrau. Respira pela boca. Rapidamente surge um segurança e adverte que não é permitido sentar na escada. Júnior estende a mão. O homem, vestido de preto, o ajuda. Júnior termina a escalada com o auxílio do corrimão. Júnior se arrasta por uma rua deserta e mal iluminada. Três garotos surgem das sombras e caminham silenciosos atrás de seus passos. Disparam num repente, derrubando Júnior no meio-fio, e fogem levando a bagagem. Júnior caído na sarjeta, numa água empoçada, com o supercílio aberto. Júnior desata a chorar. Chora sem som e sem lágrima.
0270100424. Diodo negativo. Como se nada tivesse acontecido,
Júnior se levanta e segue. Na mesma rua, trezentos metros à frente, aperta um interfone preso no portão de um prédio.
– Quem?
– Seu José do 51.
– Quem devo anunciar?
– Júnior.
– Nuno?
– Júnior.
– Nuno?
– Não! Júnior!
– Bruno?
– Júnior! – Aguarda um momento.
– Nuno – resmunga com indignação. – Nuno. – Limpa o supercílio com a manga da camisa. Camisa de manga curta.

– A Arte de Produzir Efeito Sem Causa, Lourenço Mutarelli

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Tela branca.
Gargalhada.
— No começo era eu, minha mulher e minha filha…
Gargalhada.
A risada vai sendo abafada por um zunido.
Uma mosca.
Uma enorme mosca. Gorda. Big close-up.
A câmera se afasta, revelando a mosca que se debate contra
o para-brisa.
Dezembro.
Calor.
Miguel está ao volante. Sério. Suando.
São Paulo.
A mosca se debate contra o vidro.
A mosca parece não perceber o que a detém.
Persiste.
Zunido.
Pedro repete o final da piada e ri:
— No começo, era eu, minha mulher e minha filha…
Pedro ri enquanto come Fandangos.
Mete a mão no pacote de salgadinhos.
O farfalhar do saco plástico.
O farfalhar e a mosca zunindo.
Ensurdecedor. Amplificado.
Pedro ri e mastiga Fandangos.
Close no rosto de Miguel suando.

– Miguel e os Demônios, Lourenço Mutarelli

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“Carlos?
Oi, Cris.
Onde você está?
Acabei de chegar em casa. Quer ligar aqui?
Não… Ele apareceu.
Encontraram ele?
Ele apareceu.
Ele apareceu? Ele está vivo?
Ele está bem.
Onde ele estava? Como ele está?
Ele apareceu.
Mas onde? Onde o encontraram? Como ele está?
Ele apareceu do nada.
Meu Deus! E como ele está?
Ele está bem.
Você já viu ele?
Não. Quem me ligou foi a Fernanda. Ele apareceu na casa da dona Inês.
Ele apareceu… O que foi que ele disse? Por onde ele andou durante todo esse tempo? E como está a Luci, e a menina?
Ele não lembra de nada.
Não lembra? Como assim, não lembra? Minha Nossa! E a Luci e a Ingrid?
Ele não sabe.
Então elas continuam desaparecidas? E ele não se lembra de nada?
É. Parece que a polícia está lá, investigando.
E onde ele está?
Ele está no hospital.
Hospital? Em que hospital? Mas ele está bem?
Está. Está na Beneficência Portuguesa. Parece que ia fazer uns exames.
Que coisa… Eu já tinha perdido as esperanças… Você já avisou o Pedro?
Não, vou ligar agora.
Eu vou até o hospital. Você sabe em qual quarto ele está?
Não. Mas eu também estou indo para lá.
Então, nos vemos no hospital.

– Nada me Faltará, Lourenço Mutarelli

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